O conto que vocês lerão a seguir é fictício, mas vários de seus elementos são calcados na realidade. Acontece que, na entrada de Beneditinos, cidade onde os meus avós (por parte de pai) moram, há um muro com várias propagandas eleitorais bem antigas, sendo que já estamos em 2009 e nada daquilo foi apagado. E foi isso que me inspirou...
Esta imagem, como tantas outras dos meus posts, eu encontrei no Google.
Já fazem muitas primaveras da minha vida que eu visito aquela cidade. Era um município pequeno, gracioso, as casas dos ex-prefeitos eram todas umas perto das outras -Já pensou se eles quisessem brigar? Era só sair para a rua! Frequentemente, eu via galinhas no meio dos meigos caminhos daquela cidade, ciscando entre as frestas dos paralelepípedos.
De vez em quando, aparecia um eventual porquinho, ou um burrinho, por aquelas bandas. Cidade pequena, vocês sabem.
Uma estrada meio estreita, com buracos em alguns trechos, era o meu acesso àquela cidade. Devo dizer que esses buracos eram teimosos: Toda vez eram tampados, toda vez eles voltavam. Como toda chegada em toda e qualquer cidade, a estrada apresentava sinais de que eu estava chegando perto à medida que diminuía a distância da entrada, embora, quando eu chegava, já aparecia aquele monte de casas junto, como se não tivesse havido sinal algum.
Um desses sinais era um muro que escondia, detrás, um punhado de casinhas. Era um muro de tijolo, pintado de branco em algum dia perdido, tinha uns 2 metros de altura mais ou menos. Era um muro. E, como sempre, o seu homem.
Porque havia um homem que ficava sempre em frente àquele muro.
Ele chegou lá há uns três ou quatro anos. Ninguém sabe de qual canto deste mundo ele saiu, só se sabe que ele não é nativo daquela pequena cidade. Quem sabe, ele deve ter vindo do nada. Apareceu e, simplesmente, ficou alí. Da frente daquele muro alvo, ele não saiu mais.
Ele é o Geraldinho. Ou não, porque ele pode ser chamar Luís, João, Pedro, Francisco, Gabriel, Carlos... Não sei o nome dele, para falar a verdade. Também, nunca desci para falar-lhe (por que eu faria isso?). Passei a chamá-lo de Geraldinho apenas por convenção. E ele sequer sabe que uma certa garota que passa sempre por alí resolveu lhe botar um nome.
Talvez nunca saiba.
Nem sempre Geraldinho ignorava os veículos que passavam. Às vezes, levantava a mão e dava um sorriso tímido. Ele não queria carona, apenas queria cumprimentar a quem passasse. Coincidentemente, na maioria das vezes em que agia dessa forma, ele encontrava-se sentado. Não em uma cadeira, porque lá não tinha. Era no chão mesmo.
Já quando encontrava-se de pé, Geraldinho era um boneco de cera. Parado, quieto, calmo, mudo. Branco. Alguns me contaram que, nessas horas, ele só se mexia para ajeitar os óculos. Ficava, igualmente, a observar o movimento da estrada, ou sua mesmice... nem sempre vêm muitos carros. Quem o visse assim, suspeitaria que fosse mesmo um ser humano.
E por todo esse tempo as chuvas vieram e se foram, e ele sempre estava lá. O muro, sua fiel companhia, ia se desgastando. A brancura de outrora vinha sendo pincelada de uma camada negra, embora os tijolos continuassem firmes.
Geraldinho não se desgastava junto com o muro, continuava do mesmo jeito que chegara lá. Alguns suspeitavam da existência de algum lugar onde ele se asseava, pois Geraldinho sempre estava limpo, e de roupa alinhada, embora esta fosse sempre a mesma. Mas... como isso seria possível já que, até onde se sabe, o Geraldinho nunca saiu dalí.
E... quando foi que ele comeu? Alguém lhe deixa marmitas? Afinal, ele deve comer, pois conta-se que, uma vez, ele estava no seu modo "de cera" -sério e paradão, e de pé- quando, sem mais nem menos, caiu desmaiado no chão.
A princípio, os que o socorreram suspeitaram de mal súbito, visto que ele estava bem naquela hora e no segundo seguinte já encontrava-se caído. No entanto, logo perceberam que o susto foi provocado por falta de uma refeição. Deve ter sentido tonturas, o coitado. E quis se fazer de forte até o momento em que não deu mais.
Só não foi dado um diágnostico mais preciso do problema porque Geraldinho se recusou a afastar-se de seu muro.
Geraldinho não tem cara de pobre, talvez, no dia do desmaio, seu "fornecedor de comida" deve ter se atrasado ou deixado de ir. O ocorrido desmentiu a hipótese, na qual toda a cidade estava começando a acreditar, de que ele fosse um anjo ou algo assim. E se Geraldinho desmaiou de fome é porque ele é um mortal como outro qualquer.
O mistério é como ele se mantinha sem nunca ter se separado da sombra do muro.
O muro não tem nada a ver, se repararmos bem. Geraldinho nunca olha para o muro, está sempre de costas para ele. Seu foco é a estrada. O muro só teve a sorte de o Geraldinho escolhê-lo para se aninhar. Às vezes, acho até que Geraldinho esquece-se da existência do muro.
Será que o Geraldinho sabe que o muro já não está tão branco quanto na época em que chegara alí?
Geraldinho já olhou para mim, num de seus dias em que estava sentado. Foi quando eu me espantei com ele, ou melhor, com seus olhos. Mesmo eu estando dentro de um carro e a uns cinco metros de distância dele, reparei nos orbes verdes dele. Achei até injustiça que eles sempre ficassem detrás de um par de óculos. Eram inacreditavelmente verdes.
Não foi por menos que acharam que ele fosse um anjo. Será que os olhos dos anjos são tão verdes assim?
E o que Geraldinho foi mesmo fazer alí?
Eu não acredito que uma pessoa vá ficar de bobeira durante tanto tempo ao pé de um muro. Pra quê? Ver a vida passar, da mesma forma que passam os carros na estrada? Geraldinho deve ter algum propósito que o mantenha alí, e uma personalidade forte, para não ter saído até agora.
Já li muitas estórias de apaixonados que escolhem um ponto e ficam alí, esperando a amada chegar, mesmo que pareça que ela nunca virá. Alguns passam períodos de tempo abomináveis esperando, e há os que chegam a morrer na espera, seja de inanição, seja pelo frio ou pelo calor, seja devido a tanta espera em vão. Alguns conseguem o que querem: a pessoa querida vai até eles.
Seria Geraldinho um caso desse tipo?
Levando em consideração a tamanha atenção dele à estrada, é bem capaz de que Geraldinho esteja esperando alguém. Talvez, com seus olhos verdes, ele consiga analisar detalhadamente cada rosto que ele vê dentro dos automóveis. Talvez o seu típico aceno e seu sorriso não sejam um código: o outro (ou outra) reagiria de maneira que Geraldinho soubesse o que significa.
Geraldinho poderia também ser um espião, porque não?
Será que havia alguém que estaria escondendo na cidade dinheiro ou coisas de valor conseguidas de forma ilícita? E Geraldinho seria uma pessoa contratada para ficar de olho no sujeito? Ora, o salafrário em questão deve então entrar e sair da cidade várias vezes, e para se entrar e sair dalí só havia aquela estrada.
Se bem, que ninguém nunca viu Geraldinho tirar do bolso um telefone celular, ou algo do tipo, para se comunicar com seus superiores. Aliás, parece que Geraldinho não possui telefone celular.
Também, Geraldinho nunca foi visto fazendo uma ligação. E olha que há um orelhão perto do muro.
Afinal, quem é ele?
Geraldinho não pode parecer um louco, mas talvez seja. Há loucos que assim o são mas ninguém percebe. Quem sabe, por trás da ora feição séria, ora feição simpática, ele não tenha um delírio que o faça ficar alí debaixo do sol quente. Talvez seja um paranóico, e dos mais graves.
Será mesmo que ele precisa de atendimento psiquiátrico?
Só que, pelos conceitos que se têm de loucos, eles geralmente agem de forma agressiva ou proucuram "fechar-se" quando alquém chega perto. Os moradores da cidade já me disseram várias vezes que Geraldinho nunca agiu assim com os que passavam por alí à pé. Sempre foi gentil e educado, mesmo quando estava no momento "de cera".
Geraldinho não tem cara de apaixonado, de espião ou de louco. E também não é um anjo.
No fim das contas, a gente se cansa de tanto debater sobre uma pessoa cercada de tanto mistério.
Na última vez em que visitei a doce e meiga cidadezinha, encontrei as galinhas ciscando no meio da rua, encontrei os eventuais porquinhos e eventuais burrinhos, encontrei as casas dos ex-prefeitos, todas nos seus mesmos lugares -e olha que já há mais um ex-prefeito na cidade, pois o novo já havia sido empossado à essas alturas.
Encontrei tudo e todos, só não encontrei o Geraldinho. Ele não estava mais no seu querido muro. Será que ele conseguiu o que queria, seja lá o que isso fosse?
Será que ele encontrou a pessoa que tanto proucurava, correu para a rua e encheu-a de abraços? Será que aquele salafrário deixou de visitar a cidade e, por isso, não era mais necessária a presença do Geraldinho alí? Será que ele, simplesmente, não viu mais sentido em ficar alí e foi embora? Será que ele passou mal de novo e, desta vez, conseguiram encaminhá-lo ao médico?
Puxa, logo na vez em que, quando eu já estivesse saindo da cidadezinha, eu pretendia parar o carro frente ao muro, descer e ter uma palavrinha com ele, era a vontade que eu tinha...
E também ver mais de perto aqueles belos olhos verdes.
By JuLiAnA HeLeNa![]()
Cena do filme "A Bela Adormecida", da Disney. Só que com umas palavrinhas que eu acrescentei para fazer um paralelo com o tema deste post.
Naquela velha historinha, que todo mundo conhece, sabe o nome e como termina, aparece a bruxa logo no início, na festa de batizado da recém-nascida princesa, e, morta de raiva por não ter sido convidada, roga um feitiço na coitadinha dizendo que quando ela completar 16 anos, seu dedo irá de encontro a um fuso de uma roca de fiar e em seguida a princesinha morreria.
Ah, se não fosse o acaso de ainda haver uma fada faltando para dar um dom à princesa, com certeza o resultado do encontro com o fuso não seria passar 100 anos dormindo e esperando um príncipe encantado beijá-la a fim de fazê-la acordar.
Bem, atualmente tenho a mesma idade da tal Bela Adormecida: 16 anos. Não sou princesa, não tenho grandes luxos, apesar de minha vida ser, de certa forma, confortável. Também, graças a Deus, não apareceu nenhuma bruxa (no sentido literal da palavra) na minha vida para jogar um feitiço desses em mim... puxa, ainda bem mesmo que isso não aconteceu! Porém...
Meus caros, há sempre um porém...
Não tenho luxos nem feitiços me assombrando, mas tenho 16 anos e acabei encontrando o meu fuso de roca. Na verdade, me deparei com ele quando foi assinado aquele papel no qual aceitávamos fazer uma reforma na nossa ortografia.
Entendam. Mudar algumas regras na ortografia da nossa língua é um fuso e tanto para mim, que escreve demais. Acontece que mudanças sempre incomodam à princípio: Meu modo de escrever foi calcado nas regras da reforma ortográfica de 1971, e passei uns 12 anos escrevendo dessa forma (eu aprendi a escrever com 4 anos). Ainda bem que há um tempo de adaptação às novas regras...
Bom, o fato que de eu ter exatamente 16 anos quando apareceu esse fuso, claro, é mera coincidência. Afinal, os fusos da vida não escolhem em que idade de tal pessoa vão aparecer, como na história. Uma pessoa de 50 anos que também more no Brasil também terá que fazer algumas alterações em sua escrita graças às novas regras.
Pensando bem, não só quem mora no Brasil, mas também os que moram em Portugal terão de encarar a reforma. Fiquei sabendo que, lá no outro lado do Atlântico, nossos companheiros de língua vão ter que eliminar o "p" e o "c" de palavras nas quais essas letras não são pronunciadas, como no caso de "acto" e "óptimo", que passarão a ser "ato" e "ótimo", do jeito que a gente escreve aqui. Ah, e isso sem falar de alguns "h"s... Sabiam que lá em Portugal, antes de essa reforma aparecer, se escrevia "herva" ao invés de "erva"?
Mas nós também tínhamos coisas na nossa escrita que não existem mais em Portugal e que também se extinguirão com a reforma. Quer um exemplo? Aqueles dois pontinhos que existiam em cima de alguns "u"s , o famoso trema ("¨"). Pois é, o trema morreu. Talvez por falta de uma fada que o colocasse para dormir por 100 anos. Ou será que apareceu e nós não ficamos sabendo?
Mas, convenhamos, o trema não era tão amigável assim! Acabar com ele até que foi uma boa ideia... Se bem que em nomes próprios e em seus derivados, ele continua.
Falando em "ideia", essa reforma reforma fez também que o acento agudo desaparecesse de algumas palavras. Foi o caso dos "ei"s e "oi"s das paroxítonas (assembleia, jiboia...), dos "i"s e "u"s tônicos precedidos de ditongo -também em paroxítonas (feiura, baiuca...) e também de um outro caso mais complicado, o do "apazigue", que eu não entendi ainda.
E não foi só o agudo que está sofrendo com esses cortes, mas o circunflexo também. Por isso é que "vôo" virou "voo", "lêem" virou "leem", "crêem" virou "creem" e "enjôo" virou "enjoo". Isso aí: nada de circunflexos em "oo"s e "ee"s. Essa é a regra.
Outra: o "k", o "w" e o "y" voltaram à casa. Foram expulsas pela reforma de 1971 e agora, com a nova reforma, fazem o nosso alfabeto ter 26 letras, como nos velhos tempos. Não faz tanta diferença.
Voltando aos acentos, há ainda a questão do acento diferencial. Ele também morreu, se bem que até que era bom a gente saber logo de cara quem era o "para" que dizia para parar e o "para" que era só uma preposição. Ou então se esse "pera" que você acabou de escrever é a fruta ou é aquela palavrinha que ninguém usa mais.
Bom, mas caso esse papel onde você escreveu "pera" for a sua lista de supermercado, então eu vou saber que você está falando da fruta mesmo...
Aliás, peraí! No parágrafo anterior, eu escrevi "supermercado", não foi? Será que se encaixa naquela regra que... Não, não. É dito que só haverá o hífen ("-") no caso dos prefixos "super", "hiper" e "inter" quando o segundo elemento começa com "r", o que não é o caso de "supermercado". Falando nisso, o caso dos "super"s da vida é uma exceção à regra, pois a reforma colocou que não existirá hífen quando o tal do segundo elemento começar com "r" ou "s", devendo essas letras serem duplicadas, como em "antisséptico".
Realmente, a regra mais confusa de todas e a do hífen. Se bem que, pelo o que eu observei, são várias regras dentro de uma só, essa do hífen. Pelo o que eu li no artigo sobre a reforma ortográfica, na revista "Veja" edição 2093, o mais confortável seria usá-lo apenas quando, ao juntar dois termos, a pronúncia sair errada. Quem sabe, quando houver outra reforma, eles resolvam fazer isso.
São só essas regras? Se houver mais alguma, me avisem, por favor. Afinal, já deve ter dado para perceber o quanto é afiado esse fuso.
Na verdade, essa reforma ortográfica é mais velha do que eu. A ideia de se fazer novas mudanças na língua portuguesa surgiu lá por volta de 1986 e passaram-se duas décadas discutindo-a até agora, quando ela finalmente passou a valer. E, mesmo assim, ainda há críticas: Dizem que os países africanos que falam o português mal foram consultados na elaboração das novas regras.
Outra: Devido à nova regra, todos os livros, a partir deste ano, já deverão atender às novas exigências, mesmo que sua edição seja ainda recente. Pelo menos, foi assim que eu entendi que iria ser.
Há também quem diga que foi melhor ter as mudanças, afinal agora foram reduzidas ao máximo as diferenças entre a grafia de casa país. Sem falar que as outras grandes línguas, como o inglês, o castelhano e o francês, contam uma forma única de escrita para todos os países que as falam. Bem, mas toda mudança tem seus prós e seus contras.
Desde que assinou-se a "permissão", eu venho me adaptando. O trema já enxotei de meus textos, os circunflexos nos "oo"s e "ee"s também. No momento, estou me acostumando com os agudos e com os diferenciais. As letras a mais não são problema porque, como eu já disse, não faz tanta diferença. E escrever no Word está um tanto problemático: quando eu escrevo uma palavra usando as novas regras, aparece o sublinhado vermelho embaixo denunciado que a escrita daquela palavra está errada...
Eu tive a prova disso ontem, quando fui ajudar a mamãe a digitar uma coisa.
Embora já pudessem ser vistas essas mudanças aqui no blog, eu declaro que, a partir do início deste ano, a blogueira tem o compromisso de adaptar seus posts às novas regras. Não será fácil, por algum tempo vocês ainda encontrarão um "português arcaico" num cantinho aqui ou alí. Na verdade, eu até queria que este post fosse o primeiro do ano, para logo firmar este compromisso com vocês.
Pois aí está! É compromisso! *aparece um carimbo gigante que carimba a tela com um enorme "Compromisso!"*
Então, vamos, porque o fuso está bem afiado e é bom todo mundo tomar cuidado para não acabar espetando o dedo. Eu, pessoalmente, quero manter distância desse fuso, pois se ocorrer de eu furar meu dedo, vai ser que nem na história: Sono por 100 anos e ter que depender do príncipe para acordar. Ah... eu não quero dormir por 100 anos!
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Faço minhas as palavras que acabei de ver no jornal de hoje, segunda-feira dia 05/01:
2009 começa a pegar jeito e forma a partir de hoje!
Está certo, gatinho feliz e sorridente?
Ah, tá...
By JuLiAnA HeLeNa![]()
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